Como Escrever uma Light Novel Brasileira
Existe uma ideia moderna — e profundamente equivocada — de que escrever bem começa com inspiração, talento ou uma grande história para contar. Essa ideia nãoexistia no Japão nem no Brasil do século XVI. Naquele tempo, ninguém perguntava se o aluno “se sentia criativo”. A pergunta era muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais dura: ele escreveu hoje?
No Japão do período Sengoku, aprender a escrever não era um ato de expressão pessoal, mas de disciplina. Antes de qualquer tentativa de originalidade, o aprendiz copiava. Copiava poemas, registros, narrativas curtas, diários. Não para se tornar igual ao mestre, mas para absorver a forma. A crença era clara: a mão aprende antes da mente, e a mente aprende antes do espírito. Só depois de repetir centenas de vezes uma estrutura simples é que o aluno era autorizado a variar.
No Brasil colonial, sob a influência dos jesuítas, o método era surpreendentemente parecido. Os estudantes aprendiam latim, português e retórica escrevendo todos os dias, mesmo sem compreender plenamente o que estavam escrevendo. Copiavam textos-modelo, reescreviam com pequenas alterações e, apenas mais tarde, produziam algo próprio. A escrita não era vista como arte no início, mas como ofício. Um trabalho diário, quase físico.
É exatamente esse princípio que falta à maioria dos aspirantes a escritores de webnovels hoje.
Quando alguém tenta escrever sua primeira história já pensando em originalidade, profundidade emocional e genialidade, cria um peso impossível de sustentar. O resultado costuma ser sempre o mesmo: poucas páginas escritas, muito planejamento abandonado e uma sensação constante de inadequação. Os japoneses evitam isso começando do lugar mais simples possível.
Eles não planejam histórias longas em detalhes. Planejam apenas o suficiente para continuar escrevendo amanhã.
Um capítulo japonês médio não nasce da pergunta “como vou impressionar o leitor?”, mas de algo muito mais direto: “o que aconteceu hoje com esse personagem?”. A escrita avança por acúmulo, não por impacto isolado.
É por isso que o primeiro exercício do método My Novel+ não pede criatividade, mas repetição consciente.
Imagine que você precisa escrever um capítulo hoje. Você não começa pensando em metáforas, temas ou mensagens. Você começa respondendo quatro perguntas simples, da mesma forma que um aprendiz faria há quinhentos anos.
Onde o personagem está?
O que aconteceu desde o último capítulo?
O que mudou após esses acontecimentos?
E o que ficou pendente para o próximo dia?
Por exemplo: o personagem acorda em uma cidade desconhecida. Ele tenta conseguir comida, falha, observa o ambiente e percebe que não entende a língua local. Ao final do dia, descobre um quadro de avisos com símbolos estranhos que parecem pedidos de trabalho. Nada grandioso acontece. Nenhuma revelação épica. Mas algo mudou: agora ele sabe que precisa trabalhar para sobreviver. E algo ficou em aberto: o que significam aqueles símbolos?
Isso é um capítulo funcional. Não é brilhante. Não é profundo. Mas ele existe. E amanhã, você escreve outro.
O exercício proposto no My Novel+ segue exatamente essa lógica antiga. Durante sete dias seguidos, o aluno escreve um capítulo por dia, com algo entre quinhentas e oitocentas palavras, usando sempre essa mesma estrutura. Não se revisa no mesmo dia. Não se apaga. Não se “melhora”. O objetivo não é qualidade imediata, mas criar volume narrativo.
Nos métodos antigos, o texto do aprendiz não era tratado como obra final. Era tratado como matéria-prima. Só depois de muita produção é que se ensinava lapidação.
Esse processo gera algo que muitos escritores modernos nunca experimentam: fluidez. Depois de alguns dias, o cérebro para de travar diante da página em branco. A escrita deixa de ser um evento emocional e passa a ser uma ação natural, como caminhar ou conversar.
É assim que autores japoneses conseguem escrever centenas de capítulos. Eles não estão constantemente tentando superar a si mesmos. Estão apenas dando continuidade ao fluxo.
O objetivo inicial ao escrever uma webnovel não é ser memorável. É ser constante. A constância cria ritmo. O ritmo cria técnica. E a técnica, com o tempo, cria estilo.
Esse método pode parecer simples demais para quem espera algo sofisticado. Mas foi exatamente assim que se formaram escribas, cronistas, monges e narradores por séculos. A diferença é que hoje, em vez de pergaminhos ou cadernos escolares, usamos plataformas digitais.
A pergunta que guiava o ensino antigo continua sendo a mais importante até hoje: você escreveu hoje?
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