UM EXEMPLO DE NARRATIVA FUNDAMENTAL
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Convém, neste ponto, abandonar a abstração e observar um caso concreto. Poucas obras da literatura brasileira servem tão bem a esse propósito quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Não pela singularidade do artifício — o narrador defunto —, mas pela clareza com que a obra expõe os mecanismos essenciais da narrativa.
Ao escolher um narrador que já ultrapassou a própria existência, Machado elimina, de imediato, o conflito mais comum das histórias: o desejo de sobreviver. A morte, aqui, não é obstáculo nem ameaça. E justamente por isso, o autor nos obriga a procurar o verdadeiro núcleo da narrativa em outro lugar.
Brás Cubas escreve não para mudar o mundo, nem para justificar-se diante dele, mas para examiná-lo à distância. Essa posição privilegiada permite algo raro: o personagem não disputa mais espaço com os acontecimentos; ele os contempla. O conflito, portanto, não se encontra na ação, mas no juízo.
O leitor atento perceberá que a transformação não se dá por meio de grandes revelações. Não há conversão moral, nem redenção tardia. O que ocorre é mais sutil: à medida que o narrador revisita sua própria vida, evidencia-se a insuficiência de suas ambições, a fragilidade de seus afetos e o vazio que atravessa suas conquistas.
A mudança, nesse caso, não se expressa como progresso, mas como consciência. Brás Cubas não se torna melhor; torna-se mais lúcido — ainda que essa lucidez venha acompanhada de ironia e desencanto. Eis um ponto essencial: a narrativa não exige elevação moral, apenas coerência humana.
Este exemplo nos ensina algo decisivo. Uma história pode prescindir de aventuras, de reviravoltas espetaculares e até de esperança. O que ela não pode dispensar é um ponto de tensão entre aquilo que o personagem foi e aquilo que ele passa a compreender.
Ao estudar esta obra, não se busca imitação de estilo nem reverência excessiva. Busca-se compreender como, mesmo em silêncio e distância, a narrativa continua a operar. Machado demonstra que, quando a estrutura é sólida, até a ausência de vida pode tornar-se matéria narrativa.
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