Capítulo 001 – Parte 3


— break —

Houve um estalo agudo, seguido pelo som de um sino tocando.

— Agora parando em Korsa — ecoou uma voz sem corpo. Um novo chiado. — Repetindo: agora parando em Korsa. Obrigado.

Os alto-falantes chiaram uma última vez antes de ficarem em silêncio.

Zorian soltou um longo suspiro de irritação e abriu os olhos. Ele odiava trens. O tédio, o calor e o som rítmico das rodas conspiravam para deixá-lo sonolento, mas sempre que finalmente conseguia cochilar era acordado de forma brusca pelo anúncio da estação. Ele sabia que essa era exatamente a função do anunciante — acordar passageiros que dormiriam além do ponto —, mas isso não tornava a situação menos irritante.

Olhou pela janela e viu uma estação como qualquer outra. Na verdade, era idêntica às cinco anteriores, até o contorno azul na grande placa branca com o nome “Korsa”. Ao que parecia, os construtores de estações estavam usando algum tipo de modelo padrão ultimamente. Observando a plataforma, percebeu uma grande multidão esperando para embarcar. Korsa era um importante centro comercial, lar de muitas famílias mercantes recém-enriquecidas, que enviavam seus filhos para a prestigiada academia de Cyoria a fim de se tornarem magos e conviverem com descendentes de outras famílias influentes. Zorian se pegou desejando que nenhum colega entrasse em seu compartimento, mas sabia que era um desejo inútil — havia muitos deles, e o compartimento estava completamente vazio além dele. Tentou se acomodar melhor no assento e fechou os olhos novamente.

A primeira pessoa a entrar foi uma garota rechonchuda, de óculos, usando uma gola alta verde. Ela lhe lançou um olhar rápido e começou a ler um livro em silêncio. Zorian teria ficado satisfeito com uma companhia tão discreta, mas logo um grupo de quatro outras garotas entrou e ocupou os assentos restantes. As recém-chegadas eram barulhentas e dadas a ataques constantes de risadinhas, e Zorian ficou seriamente tentado a procurar outro compartimento. Passou o resto da viagem alternando entre observar os campos intermináveis pela janela e trocar olhares irritados com a garota de gola verde, que parecia tão incomodada quanto ele.

Ele soube que estavam se aproximando de Cyoria quando avistou árvores no horizonte. Havia apenas uma cidade naquela rota tão próxima da grande floresta do norte, e os trens geralmente evitavam chegar perto de um lugar tão infame. Zorian pegou sua bolsa e foi até a saída. A ideia era desembarcar entre os primeiros e evitar o empurra-empurra habitual ao chegar em Cyoria, mas já era tarde demais — uma multidão se aglomerava ali. Encostou-se à janela próxima e esperou, ouvindo a conversa animada de três estudantes do primeiro ano ao lado, empolgados com a ideia de começar a aprender magia. Pobres coitados… o primeiro ano era quase todo teoria, exercícios de meditação e treinamento para acessar o mana de forma consistente.

— Ei, você! Você é veterano, não é? — perguntou uma garota.

Zorian olhou para ela e conteve um gemido de irritação. Ele definitivamente não queria conversar. Estava no trem desde cedo, levara uma bronca da mãe por não ter oferecido algo para Ilsa beber, e não estava com paciência para nada.

— Acho que dá pra dizer isso — respondeu com cautela.

— Você pode mostrar alguma magia? — perguntou ela, animada.

— Não — respondeu Zorian, seco. E nem estava mentindo. — O trem é protegido por encantamentos que interferem na manipulação de mana. Já tiveram problemas com gente iniciando incêndios e vandalizando os compartimentos.

— Ah… — murmurou a garota, claramente decepcionada. Ela franziu a testa, tentando entender. — Manipulação de mana?

Zorian arqueou uma sobrancelha.

— Você não sabe o que é mana? — Era aluna do primeiro ano, sim, mas isso era básico. — “Magia” não é a resposta. Mana é o que alimenta a magia — a energia que o mago molda para produzir um efeito mágico. Você vai aprender nas aulas. Em resumo: sem mana, sem magia. E agora eu não posso usar mana.

Era uma explicação um pouco enganosa, mas servia. Ele não tinha a menor intenção de dar aula para uma desconhecida.

— Ah… tá. Desculpa incomodar.

Com um guincho alto e vapor escapando, o trem parou na estação de Cyoria, e Zorian desembarcou o mais rápido que pôde, passando pelos calouros boquiabertos diante da cena.

A estação de Cyoria era enorme, fato evidente por ser totalmente fechada, parecendo um túnel gigantesco. Na verdade, o complexo era ainda maior, com outros quatro “túneis” semelhantes e diversas instalações de apoio. Não havia nada igual em nenhum outro lugar do mundo, e quase todo mundo ficava pasmo ao vê-la pela primeira vez. Zorian também ficara. A sensação de desorientação era ampliada pela quantidade absurda de pessoas circulando ali — passageiros, trabalhadores inspecionando trens e descarregando bagagens, jornaleiros gritando manchetes, mendigos pedindo trocados. Pelo que ele sabia, esse fluxo nunca cessava, nem mesmo à noite, e aquele era um dia especialmente movimentado.

Ele olhou para o enorme relógio pendurado no teto e, vendo que tinha tempo de sobra, comprou um pão na padaria próxima antes de seguir para a praça central de Cyoria, com a intenção de comer sentado à beira da fonte. Era um bom lugar para relaxar.

Cyoria era uma cidade curiosa. Uma das maiores e mais desenvolvidas do mundo, o que à primeira vista parecia estranho, já que ficava perigosamente próxima de uma região selvagem infestada de monstros e não ocupava uma posição comercial favorável. O que realmente a projetara à fama era o imenso buraco circular no lado oeste da cidade — provavelmente a entrada de masmorra mais óbvia do mundo e o único poço de mana de Rank 9 conhecido. As quantidades absurdas de mana jorrando do submundo tornavam o local irresistível para magos. A presença de tantos magos fazia de Cyoria uma cidade única no continente, tanto na cultura quanto, mais visivelmente, na arquitetura. Coisas impraticáveis em outros lugares eram comuns ali, criando um espetáculo inspirador para quem encontrasse um bom ponto de observação.

Ele congelou ao notar um enxame de ratos encarando-o ao pé da escadaria que pretendia descer. O comportamento já era estranho, mas seu coração acelerou quando reparou em suas cabeças. Aquilo era… os cérebros estavam expostos? Ele engoliu em seco, deu um passo para trás e recuou lentamente antes de se virar e sair correndo. Não sabia o que eram, mas definitivamente não eram ratos normais.

Pensando bem, não deveria se surpreender — um lugar como Cyoria atraía mais do que magos; criaturas mágicas de todo tipo também eram atraídas. Ele só ficou aliviado por os ratos não o perseguirem, já que não possuía feitiços de combate. O único feitiço que poderia ajudar seria afugentar animais, e ele não fazia ideia de quão eficaz seria contra criaturas claramente mágicas.

Ainda abalado, mas decidido a chegar à fonte, tentou contornar os ratos passando pelo parque próximo. O azar, porém, não o largava naquele dia. Ele deu de cara com uma garotinha chorando descontroladamente na ponte que precisava atravessar, e levou cinco minutos para acalmá-la o suficiente para entender o que havia acontecido. Ele poderia simplesmente tê-la ignorado, mas nem ele era tão insensível.

— A… a b-bicicleta! — ela soluçou. — C-caiu!

Zorian piscou, tentando entender. Vendo que não se fazia clara, a menina apontou para o córrego sob a ponte. Ele olhou e viu uma bicicleta infantil meio submersa na água barrenta.

— Hm. Como isso foi parar aí?

— Caiu! — repetiu ela, à beira de chorar de novo.

— Tudo bem, tudo bem, sem drama. Eu tiro de lá, está bem? — disse Zorian, avaliando a bicicleta.

— Você vai se sujar… — avisou ela, esperançosa mesmo assim.

— Não se preocupe. Não vou entrar nessa lama. Observe.

Ele fez alguns gestos e lançou um feitiço de levitar objeto, fazendo a bicicleta sair da água aos solavancos. Era mais pesada do que os objetos com que costumava treinar, e ele precisou erguê-la mais alto do que o normal, mas nada além de suas capacidades. Quando ficou perto o suficiente, segurou-a pelo selim e a colocou na ponte.

— Pronto. Está suja e molhada, mas isso eu não sei resolver. Não conheço feitiços de limpeza.

— O-obrigada… — disse a garota, agarrando a bicicleta.

Zorian se despediu e foi embora, concluindo que o descanso na fonte não estava destinado a acontecer. O tempo também piorava rápido; nuvens escuras se formavam no horizonte, anunciando chuva. Decidiu apenas seguir a fila dispersa de estudantes em direção à academia.

A distância da estação até a academia era grande — a estação ficava nos arredores da cidade, e a academia, junto ao Buraco. Dependendo do preparo físico e da bagagem, a caminhada levava uma ou duas horas. Zorian não era particularmente atlético, mas viajara leve de propósito. Juntou-se ao fluxo de estudantes, ignorando calouros lutando com bagagens excessivas. Ele até se compadecia, pois seus irmãos também não o haviam alertado da primeira vez, mas nada podia fazer.

Apesar da ameaça de chuva e do azar, sentia-se revigorado ao se aproximar da academia. Estava absorvendo o mana ambiente emanado do Buraco, repondo as reservas gastas ao levitar a bicicleta. Academias de magia quase sempre eram construídas sobre poços de mana exatamente por isso — níveis elevados de mana eram ideais para magos inexperientes praticarem. Quando esgotavam suas reservas, podiam suplementá-las a partir do ambiente.

Zorian tirou a maçã do bolso e a levitou sobre a palma da mão. Não era bem um feitiço, mas manipulação bruta de mana — um exercício para aprimorar controle e direcionamento. Parecia simples, mas ele levara dois anos para dominá-lo. Às vezes se perguntava se a família estava certa e ele realmente era obcecado demais pelos estudos. Sabia que muitos colegas tinham controle bem mais frouxo, e isso não parecia atrapalhá-los tanto.

Desfez a estrutura de mana e deixou a maçã cair na mão. Gostaria de conhecer algum feitiço contra chuva — as primeiras gotas já caíam. Ou um guarda-chuva. Qualquer um servia, exceto que o guarda-chuva não exigia anos de treino.

— Às vezes, magia é um péssimo negócio — murmurou, sombrio.

Respirou fundo e começou a correr.

— break —

— Hm. Então existe um feitiço contra chuva — murmurou Zorian ao ver as gotas respingarem contra uma barreira invisível à sua frente.

Ele estendeu a mão além do limite e ela passou sem impedimento. Retirou-a, agora molhada, e seguiu a borda da barreira até onde alcançava a vista. Pelo que pôde perceber, a barreira envolvia todo o complexo da academia, impedindo apenas a chuva de entrar. Aparentemente, as proteções haviam sido atualizadas novamente — isso não existia da última vez que choveu.

Dando de ombros, seguiu para o prédio administrativo. Pena que a barreira não o secasse ao atravessá-la; ele estava encharcado. Ao menos a bolsa era impermeável. Caminhando mais devagar, observou os prédios da academia. As proteções não eram a única novidade: tudo parecia embelezado. Prédios recém-pintados, ruas coloridas, jardins floridos e até a pequena fonte — quebrada há anos — funcionava novamente.

— O que será que aconteceu… — murmurou.

Após pensar um pouco, decidiu que descobriria depois, se fosse relevante.

O prédio administrativo estava, previsivelmente, quase vazio. A maioria dos estudantes buscara abrigo da chuva, e os demais nem moravam no campus. Perfeito para Zorian, que queria resolver tudo rápido.

“Rápido”, porém, era relativo — levou duas horas lidando com a atendente até concluir a papelada. Perguntou sobre o horário das aulas, mas disseram que só estaria pronto na segunda-feira. Antes de sair, recebeu um livro de regras para alunos do terceiro ano. Folheou-o enquanto procurava o quarto 115 e o guardou em um compartimento obscuro da mochila, destinado a nunca mais ser aberto.

A moradia da academia era terrível, mas gratuita, e aluguéis em Cyoria eram absurdos. Até filhos de nobres moravam ali. Além disso, ficava perto das salas de aula e da maior biblioteca da cidade.

Uma hora depois, Zorian sorriu ao entrar em um quarto surpreendentemente espaçoso. Sorriu ainda mais ao perceber que tinha banheiro próprio — com chuveiro. Uma mudança bem-vinda em relação ao passado. Havia cama, guarda-roupa, gavetas, escrivaninha e cadeira. Tudo o que precisava.

Largou a bagagem, trocou as roupas molhadas e caiu na cama, aliviado. Tinha dois dias antes das aulas começarem; desempacotaria amanhã. Ficou imóvel, perguntando-se por que não ouvia a chuva bater na janela, até lembrar da barreira.

— Preciso aprender a lançar isso — murmurou.

Seu repertório de feitiços era limitado, cerca de vinte simples, mas ele pretendia mudar isso. Como mago certificado do primeiro círculo, agora tinha acesso a áreas da biblioteca antes proibidas. Cansado da viagem, fechou os olhos para um cochilo.

Só acordaria na manhã seguinte.





Got an error? Report now
Comments

Comments [0]