Capítulo 001 – Parte 2

Bom dia, irmão


Após uma breve apresentação à mãe e à irmã, Ilsa perguntou se havia algum lugar onde pudessem discutir assuntos da academia em particular. A mãe decidiu prontamente que precisava ir ao mercado da cidade e levou Kirielle com ela, deixando Zorian sozinho na casa com a maga, que imediatamente espalhou vários papéis sobre a mesa da cozinha.

— Então, Zorian — começou ela. — Você já sabe que passou na certificação.

— Sim, recebi a notificação escrita — respondeu Zorian. — Cirin não tem uma torre de magos, então eu pretendia pegar o distintivo quando voltasse para Cyoria.

Ilsa simplesmente lhe entregou um pergaminho lacrado.

Zorian examinou o objeto por alguns segundos e então tentou quebrar o selo para poder ler o conteúdo. Sem sucesso. O selo era resistente demais — de forma anormal, até.

Ele franziu a testa. Ilsa não teria lhe dado aquilo se não achasse que ele era capaz de abri-lo. Um teste, então? Ele não era nada de especial, portanto deveria ser algo simples. Que habilidade todo mago recém-certificado possuía que poderia…

Ah.

Quase revirou os olhos quando percebeu do que se tratava. Canalizou um pouco de mana para o selo, que se partiu imediatamente ao meio, permitindo que Zorian desenrolasse o pergaminho. O texto estava escrito em uma caligrafia impecável e parecia ser algum tipo de comprovação oficial de sua identidade como mago do primeiro círculo.

Ele olhou para Ilsa, que assentiu de forma aprovadora, confirmando que aquilo havia sido, de fato, um teste.

— Você não precisa pegar o distintivo imediatamente — explicou ela. — Ele é bastante caro, e ninguém vai incomodá-lo quanto a isso, a menos que você pretenda abrir uma loja ou vender seus serviços mágicos. Caso alguém insista, basta direcioná-los à academia e nós resolveremos a situação.

Zorian deu de ombros. Embora pretendesse se afastar da família, preferia esperar até se formar — o que ainda levaria dois anos. Fez um gesto para que ela continuasse.

— Muito bem. Os registros indicam que você morou nas acomodações da academia nos últimos dois anos. Imagino que pretenda continuar?

Zorian assentiu, e Ilsa enfiou a mão no bolso e lhe entregou uma chave bastante estranha. Zorian entendia como fechaduras comuns funcionavam, e até conseguia arrombar algumas mais simples com tempo suficiente, mas não fazia ideia de como aquela chave deveria operar — ela não possuía “dentes” para encaixar nos pinos da fechadura.

Por instinto, canalizou um pouco de mana nela. Linhas douradas e tênues se acenderam imediatamente na superfície do metal.

Ele olhou para Ilsa em silêncio, questionando.

— As acomodações para alunos do terceiro ano funcionam de forma diferente — explicou ela. — Como você deve saber, agora que é um mago certificado do primeiro círculo, a academia está autorizada a lhe ensinar magias do primeiro círculo e superiores. Por lidar com material sensível, uma segurança maior é necessária. Você será transferido para outro prédio. A fechadura do seu quarto é sintonizada com a sua mana, então será necessário canalizar mana pessoal para a chave — como acabou de fazer — para destravá-la.

— Entendi — disse Zorian.

Girou a chave distraidamente entre os dedos, se perguntando como exatamente a academia havia obtido sua assinatura de mana. Algo para pesquisar depois, supôs.

— Normalmente eu explicaria em detalhes o que significa ser um aluno do terceiro ano da Academia Mágica de Cyoria — continuou Ilsa —, mas ouvi dizer que você tem um trem para pegar em breve. Então vamos direto ao motivo principal da minha visita: seu mentor e suas disciplinas eletivas. Depois disso, você pode me perguntar o que quiser.

Zorian se animou imediatamente, especialmente ao ouvir a palavra mentor.

Cada aluno do terceiro ano recebia um mentor, com quem se reunia semanalmente. O mentor ensinava de formas que não eram possíveis em aulas convencionais e ajudava o aluno a atingir seu máximo potencial. A escolha do mentor podia definir — ou arruinar — toda uma carreira mágica, e Zorian sabia que precisava escolher com cuidado.

Felizmente, ele já havia conversado com alunos mais velhos para descobrir quais mentores eram bons… e quais eram péssimos.

— Então, quais mentores estão disponíveis? — perguntou.

— Bem… na verdade, receio que você não possa escolher — disse Ilsa, com certo constrangimento. — Como mencionei, eu deveria ter vindo antes. Infelizmente, todos os mentores, com exceção de um, já atingiram o limite de alunos.

Zorian teve um pressentimento horrível.

— E esse mentor é…?

— Xvim Chao.

Zorian gemeu, enterrando o rosto nas mãos.

De todos os professores, Xvim era unanimemente considerado o pior mentor possível. Claro que tinha que ser ele.

— Não é tão ruim assim — tentou tranquilizá-lo Ilsa. — Os rumores são, em grande parte, exagerados e espalhados por alunos que não querem lidar com o nível de exigência do professor Xvim. Tenho certeza de que um estudante talentoso e dedicado como você não terá problemas.

Zorian soltou uma risada seca.

— Imagino que não exista nenhuma chance de transferência para outro mentor, certo?

— Não realmente. Tivemos uma taxa de aprovação excelente no ano passado, e todos os mentores estão sobrecarregados. O professor Xvim é o que tem menos alunos no momento.

— Que surpresa — murmurou Zorian. — Certo. E quanto às eletivas?

Ilsa lhe entregou outro pergaminho, desta vez sem lacre, contendo uma lista de todas as disciplinas eletivas oferecidas pela academia.

Era longa. Muito longa.

Era possível se inscrever em praticamente qualquer coisa — inclusive matérias que não eram estritamente mágicas, como matemática avançada, literatura clássica e arquitetura. O que fazia sentido, já que a tradição mágica ikosiana sempre esteve profundamente ligada a outras áreas do conhecimento.

— Você pode escolher até cinco, mas não menos que três eletivas este ano — explicou Ilsa. — Seria muito mais conveniente se decidisse agora, para que possamos finalizar os horários antes do início das aulas. Não se assuste com o tamanho da lista. Mesmo que escolha algo que não lhe agrade, você pode trocar de disciplina durante o primeiro mês.

Zorian franziu a testa. Eram muitas opções, e ele não tinha certeza do que escolher. Já tinha se dado mal na questão do mentor — não podia errar aqui também. Aquilo levaria um tempo.

— Por favor, não me leve a mal, senhorita Zileti, mas você se importaria se fizermos uma pequena pausa antes de continuar?

— Claro que não — respondeu ela. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada demais — garantiu Zorian. — É só que eu realmente preciso ir ao banheiro.

Definitivamente não era a melhor maneira de causar uma boa primeira impressão. Kirielle ia pagar caro por colocá-lo naquela situação.
— pausa —

Zorian seguiu a família em silêncio ao entrarem na estação de trem de Cirin, ignorando o cumprimento exageradamente animado de Fortov a alguns “amigos”. Ele vasculhou a multidão em busca de algum rosto conhecido, mas, como era de se esperar, não encontrou ninguém.

Ele não conhecia muita gente em sua cidade natal — algo que seus pais adoravam lembrar.

Sentiu o olhar da mãe sobre si enquanto procurava, sem sucesso, um banco vazio, mas se recusou a encará-la. Ela tomaria isso como permissão para puxar conversa, e ele já sabia exatamente o que ela diria.

“Por que você não se junta ao Fortov e aos amigos dele, Zorian?”

Porque eles são um bando de idiotas imaturos, assim como o Fortov.

Ele suspirou, olhando para os trilhos vazios com irritação. O trem estava atrasado. Esperar não era exatamente o problema — esperar no meio da multidão, sim.

Sua família jamais entenderia, mas Zorian odiava aglomerações. Não era algo tangível; era como se grandes grupos de pessoas projetassem algum tipo de pressão invisível que pesava sobre ele constantemente. Na maior parte do tempo, era apenas irritante — embora tivesse suas utilidades. Seus pais haviam parado de levá-lo à igreja depois de perceberem que colocá-lo em um salão pequeno e lotado resultava em vertigem e desmaios em questão de minutos.

Felizmente, a estação não estava cheia o suficiente para provocar algo tão intenso, mas Zorian sabia que a exposição prolongada cobraria seu preço. Esperava que o trem não demorasse muito — não estava nem um pouco animado com a ideia de passar o resto do dia com dor de cabeça.

A gargalhada alta de Fortov o tirou dos pensamentos sombrios.

Seu irmão mais velho não tinha esse tipo de problema, com certeza. Como sempre, estava alegre, sociável, com um sorriso capaz de iluminar o mundo. As pessoas ao seu redor claramente estavam encantadas, e ele se destacava à primeira vista, apesar de ter o mesmo porte magro de Zorian.

Ele simplesmente tinha presença.

Era como Daimen nesse aspecto — só que Daimen tinha habilidades reais para sustentar o carisma.

Zorian bufou, balançando a cabeça. Não sabia ao certo como Fortov havia sido aceito em uma instituição supostamente de elite como a Academia Mágica de Cyoria, mas suspeitava fortemente que o pai havia “lubrificado algumas engrenagens” para garantir isso.

Não que Fortov fosse burro — ele apenas era preguiçoso e completamente incapaz de se concentrar em qualquer tarefa, por mais importante que fosse. Claro, quase ninguém percebia isso. O garoto era encantador demais e extremamente habilidoso em varrer suas falhas para debaixo do tapete.

O pai sempre brincava que Fortov e Zorian haviam herdado cada um metade de Daimen:
Fortov ficou com o charme.
Zorian, com a competência.

Zorian nunca gostara do senso de humor do pai.

Um apito cortou o ar, e o trem entrou na estação com um guincho agudo de metal contra os trilhos. Os primeiros trens eram movidos a vapor, soltando fumaça por onde passavam e consumindo quantidades absurdas de carvão. Aquele, porém, funcionava com motores tecnomágicos modernos, alimentados por mana cristalizada.

Mais limpo. Mais barato. Menos manutenção.

Zorian conseguia sentir a mana irradiando do trem conforme se aproximava, embora sua percepção mágica ainda fosse fraca demais para distinguir detalhes. Ele sempre quis dar uma olhada na sala de máquinas de uma dessas coisas, mas nunca encontrou uma boa forma de abordar os operadores.

Mas isso ficaria para outra hora.

Ele se despediu rapidamente da mãe e de Kirielle e entrou no trem em busca de um assento. Escolheu intencionalmente um compartimento vazio — algo surpreendentemente fácil de encontrar. Apesar da multidão reunida, poucos embarcariam naquele trem específico.

Cinco minutos depois, o trem apitou novamente, ensurdecedor, e iniciou sua longa jornada rumo a Cyoria.





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