O vento gélido cortava as ruas estreitas do vilarejo, carregando consigo o cheiro metálico da Ferrugem. As casas, outrora vibrantes, agora eram sombras de sua antiga glória, cobertas por uma camada fina de poeira marrom. A doença não poupava ninguém, e Kairo sabia que o tempo estava se esgotando.Kairo observava os aldeões em silêncio, escondido atrás de uma árvore torta, já parcialmente consumida pela Ferrugem. O velho Ferreiro, um dos mais antigos moradores, tossia violentamente enquanto tentava reparar a cerca de sua casa.

Cada golpe do martelo parecia mais fraco que o anterior, até que ele finalmente caiu de joelhos, o martelo escorregando de suas mãos. O coração de Kairo apertou. Ele não podia continuar vendo seu vilarejo definhar, mas o que ele, apenas um jovem, poderia fazer?

— Mais um a cair..., murmurou ele, fitando o horizonte.

Desde o início da Ferrugem, três meses atrás, a vida no vilarejo se transformou em uma luta constante pela sobrevivência. O solo estava infértil, as plantações secas e os animais adoecendo. A cada dia, mais uma casa sucumbia, enquanto a Ferrugem se espalhava silenciosamente, consumindo tudo à sua volta.

Kairo se virou e caminhou apressadamente em direção à sua casa, as botas levantando poeira em seu caminho. Ele sabia que precisava encontrar uma solução – algo que pudesse salvar as pessoas, sua casa. Seus pais sempre acreditaram que a Ferrugem era uma maldição, um castigo dos deuses pelas ofensas passadas. Mas Kairo sabia que havia mais.

A bruxa do vilarejo falava sobre uma antiga lenda, algo que ele não podia mais ignorar.

Ao chegar em casa, ele encontrou sua mãe, sentada à mesa, costurando uma capa de lã. Seus dedos estavam machucados pelo trabalho incessante, mas ela não demonstrava dor.

— Mãe... — Kairo começou, hesitante. — Você já ouviu falar da Fonte dos Desejos?

Sua mãe parou de costurar e levantou os olhos. Ela soltou um suspiro cansado antes de responder:

— A Fonte dos Desejos é apenas uma história, filho. Algo para acalmar os corações aflitos, mas não passa disso. — Ela voltou ao trabalho, ignorando o brilho nos olhos de Kairo.

Mas ele não podia mais se conformar com a desesperança. Naquela mesma noite, decidiu ir até a velha biblioteca, um lugar onde poucos se aventuravam desde que a Ferrugem começou a devastar o vilarejo. Os corredores estreitos eram iluminados apenas por algumas velas desgastadas.

O cheiro de livros mofados se misturava ao ambiente denso. Ele se encolheu diante das estantes, passando os dedos pelas lombadas dos livros até encontrar o que procurava: "Crônicas das Terras Esquecidas".

As páginas estavam amarelas e frágeis, mas as palavras ainda eram legíveis. Kairo folheou o livro com cuidado, até encontrar a seção sobre a "Fonte dos Desejos". Sua respiração acelerou enquanto lia:

"Escondida nas Montanhas Cinzentas, a Fonte é guardiã de um poder capaz de conceder a cura para qualquer mal, mas o caminho até ela é traiçoeiro e poucos sobrevivem para contar."

Kairo fechou o livro com força, sentindo uma nova energia brotar dentro de si. Se tivesse uma chance, por menor que fosse, de salvar seu vilarejo, ele precisava tentar. O medo de falhar estava presente, mas a ideia de continuar assistindo seu lar sucumbir à Ferrugem era insuportável.

Enquanto saía da biblioteca, ouviu um sussurro suave vindo das sombras.

— A Fonte é real, garoto. — A voz era baixa, quase imperceptível, mas carregava uma força estranha.

Kairo girou rapidamente, deparando-se com a figura da bruxa do vilarejo. Envolta em um manto escuro, apenas seus olhos brilhavam no escuro. Ela sorriu, um sorriso que parecia saber mais do que deveria.

— Você a encontrará, mas o caminho é traiçoeiro da jornada. — Ela caminhou até ele, a luz das velas cintilando em seu rosto enrugado. — Muitos tentarão impedi-lo, mas lembre-se: o verdadeiro poder da Fonte não está na cura, mas no desejo do coração de quem a procura.


Antes que Kairo pudesse responder, ela desapareceu na escuridão. No caminho de volta para casa, as palavras da bruxa ecoavam em sua mente. A Fonte não era apenas uma lenda, e a decisão estava tomada. Amanhã, ele começaria sua jornada.

Kairo apertou os punhos, sentindo a raiva crescer dentro de si. Ele havia acabado de sair da biblioteca, a promessa da Fonte dos Desejos ainda ecoando em sua mente, quando percebeu Renan aproximando-se. Alto, com olhos sombrios e um sorriso sempre cheio de desdém, Renan era tudo o que Kairo desprezava. Eles haviam crescido juntos, mas suas visões de mundo eram completamente opostas.

— O que você está fazendo aqui, Renan? — Kairo perguntou, tentando controlar sua irritação.

Renan deu de ombros, sua postura relaxada, mas seus olhos faiscando.

— Eu poderia perguntar o mesmo. Ouvi rumores de que você anda se metendo com aquela bruxa maluca. E agora, está atrás de uma lenda? — Ele riu, o som soando cruel. — Você realmente acha que pode salvar o vilarejo sozinho? Que tipo de herói você acha que é?

Kairo deu um passo à frente, sua voz firme.

— Alguém precisa tentar. Você só fica aqui, assistindo as pessoas morrerem!

Renan revirou os olhos, cruzando os braços.

— E o que exatamente você vai fazer? A Fonte é apenas uma história, e você vai se perder tentando salvá-los. — Ele inclinou-se para Kairo, o sorriso arrogante se alargando. — Você não é especial.





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