O dia amanhecia cinzento sobre o vilarejo, e os primeiros raios de sol lutavam para penetrar as nuvens espessas que refletiam a atmosfera pesada. Kairo saía de casa, determinado a unir seus vizinhos em busca de uma solução para a Ferrugem, mas o clima de desconfiança pairava no ar.

Kairo caminhou pelas ruas, notando os olhares desconfiados dos aldeões. A ferida da Ferrugem era visível em cada rosto, mas a esperança parecia ter desaparecido. Ele respirou fundo, tentando reunir coragem. Sabia que precisava convencer os aldeões a aceitarem a ideia da Fonte dos Desejos e da ajuda da bruxa.

Ao se aproximar da praça central, onde a maioria dos habitantes se reunia, Kairo viu Ferrir, o velho ferreiro, gesticulando animadamente enquanto falava com um grupo de aldeões.

— Não podemos nos deixar levar por histórias antigas — dizia Ferrir, seu rosto enrugado mostrando a frustração. — Precisamos de ações, não de lendas!

Kairo franziu a testa, ouvindo as palavras do ferreiro e sentindo uma pontada de desapontamento. Ele se aproximou, tentando intervir.

— Mas, Ferrir, a bruxa disse que a Fonte pode nos ajudar! É uma oportunidade — insistiu Kairo, sua voz firme, mas um tanto hesitante.

— Uma oportunidade? — Ferrir interrompeu, o olhar desafiador. — Você realmente acredita que devemos arriscar nossas vidas atrás de uma lenda? Magia não vai salvar ninguém!

Nesse momento, Renan, seu rival, surgiu com um sorriso sarcástico nos lábios. Ele se apoiou em uma das colunas da praça, observando a cena com um olhar divertido.

— Olha só, Kairo, tentando ser o herói de todos — ele zombou, atraindo a atenção dos aldeões. — Acha que a bruxa e a Fonte vão resolver nossos problemas? — Ele se aproximou, seu tom desdenhoso mais evidente. — A Ferrugem é real e precisamos de soluções reais, não de histórias de conto de fadas.

Kairo sentiu seu coração disparar, a raiva começando a borbulhar. Ele queria desafiar Renan, mostrar que sua determinação era mais forte, mas a presença do rival era sufocante, uma sombra que se estendia sobre sua confiança.

— O que você sugere, Renan? — Kairo retrucou, tentando manter a calma. — Ficar aqui e esperar a morte chegar?

Renan riu, mas o riso não alcançou seus olhos. Ele sempre fora o favorito entre os aldeões, conhecido por suas habilidades de caça práticas. A confiança que Kairo sentia na Fonte era constantemente ameaçada pela certeza de Renan de que ele poderia encontrar uma solução mais direta.

— Eu digo que devemos buscar a cura de forma realista! O velho Domingos conhece ervas que podem ajudar. Por que não fazemos algo que realmente funcione? — Renan continuou, incitando os aldeões a concordarem com ele.

Kairo, sentindo a pressão aumentar, olhou para o grupo que começava a murmurar entre si. O receio e a desconfiança começavam a ganhar força, enquanto as palavras de Renan ecoavam em suas mentes.

— A magia é uma ilusão! — gritou um aldeão, ecoando o sentimento geral. — Não podemos confiar em bruxas e lendas!

A tensão crescia, e Kairo percebeu que precisava agir rapidamente. Ele não poderia permitir que a dúvida dominasse os corações das pessoas. A voz da bruxa ecoava em sua mente, a lembrança da visão da Fonte e a promessa de cura, mas as palavras dos aldeões o cercavam como uma tempestade.

— Escutem! — Kairo exclamou, erguendo as mãos para chamar a atenção. — A Ferrugem está matando todas as pessoas. Precisamos tentar algo diferente! Não podemos nos agarrar ao que sempre fizemos. A Fonte pode ser nossa única chance!

Renan riu de novo, cruzando os braços.

— E se você falhar? E se você levar todos nós para a morte? — ele disse, lançando um olhar cínico. — Você realmente acha que pode lidar com isso sozinho?

O silêncio tomou conta da praça. Kairo olhou ao redor, percebendo o olhar hesitante de seus vizinhos. Era um momento crucial, e ele precisava mostrar que era digno da confiança deles. Ele se lembrou de Ferrir, de Domingos e das crianças que brincavam na rua.

— Não estou sozinho! — Kairo gritou, a voz cheia de fervor. — A bruxa estará conosco. Ela conhece a história da Fonte! E se eu falhar, ao menos tentamos! Mas se não tentarmos, o que acontecerá com aqueles que amamos?

Kairo respirou fundo, permitindo que a adrenalina o levasse a um estado de clareza. Ele precisava mostrar não apenas seu desejo de salvar o vilarejo, mas também sua coragem em enfrentar a dúvida. Renan poderia ser um obstáculo, mas ele também era um lembrete de que Kairo precisava se fortalecer.

— A Ferrugem pode estar nos cercando, mas juntos somos mais fortes! — Kairo exclamou, sua determinação agora transparecendo.

Um murmúrio de apoio começou a surgir entre os aldeões. Kairo percebeu que alguns estavam começando a olhar para ele com uma nova perspectiva. Ele sabia que tinha que manter essa chama acesa, enfrentar a desconfiança e a resistência de Renan e dos outros.

— Se você acredita na magia, então que a magia nos guie! — um aldeão gritou, e isso desencadeou um efeito dominó, com outros começando a apoiar Kairo.

Enquanto a conversa na praça começava a mudar de tom, Renan, ainda cético, lançou um olhar desafiador.

— Muito bem, Kairo. Vamos ver até onde isso te leva. — Ele virou-se e começou a se afastar, mas Kairo percebeu que a batalha estava longe de terminar.

De repente, um estrondo ressoou ao longe, como se uma tempestade estivesse se aproximando. Os aldeões pararam, inquietos, trocando olhares nervosos. Kairo levantou a cabeça, seu coração acelerando. O som se aproximava rapidamente, e a floresta ao redor começou a tremer, não por causa de ventos, mas por uma sombra imensa de Ferrugem que cruzava os céus.
Got an error? Report now
Comments

Comments [0]